26 jan 2011 @ 1:17 PM 

Curioso como as pessoas se relacionam com conceitos matemáticos; o desconhecimento do brasileiro sobre essa ciência é tão grande, que geralmente gasta que se diga ‘as estatísticas indicam….’ para que a maioria tome por verdade o que mais você estiver alegando em seu texto.

Ignoram elas que estatísticas podem ser manipuladas e uma maneira simples de fazê-lo é usar as ‘amostras não representativas’ como principal dado e basear suas conclusões nestes dados. Para que o leitor entenda melhor, explico: imagine que numa classe de alunos existam 20 pessoas (sendo: 5 com 24 anos; 5 com 26 anos; 5 com 28 anos; 4 com 30 anos e 1 com 70 anos). Se for requerido ao pesquisador que encontre a idade média dos alunos dessa sala, o procedimento padrão seria efetuar a soma da idade de todos os alunos e depois dividir pelo número de alunos, o que resultaria numa idade média de 29 anos, certo? (580 ÷ 20). Não, a resposta está errada. É que o indivíduo com 70 anos é o que chamamos de ‘amostra não representativa’ (por destoar completamente do grupo, ele não pode representá-lo) e deve ser descartado. Assim, a idade média da classe seria 26,84 anos (510 ÷ 19).

Apenas para reforçar a ‘explicação’, sigo com outra ilustração: imagine agora que se pretenda saber qual a renda média de moradores de uma comunidade ‘X’. O pesquisador então resolve somar as rendas de todos os moradores daquele local. Só que dentre eles, há um famoso jogador de futebol que, devido aos laços com a comunidade, continua morando lá, não obstante poder morar em bairro mais ‘abastado’. Excluindo esse morador ‘Y’ (jogador de futebol), a renda média dos moradores segue em torno de R$ 1,5 mil; mas incluindo essa pessoa, a renda média dos moradores sobe para R$ 15 mil. Qual renda média obtida é a mais correta? Aquela em que o jogador ‘Y’ é classificado como ‘amostra não representativa’ e por esse motivo, excluído da equação.

Outra coisa importante que tem de ser levada em conta quando se lê qualquer notícia que remonte a qualquer dado estatístico é que podem ser dadas interpretações diferentes ao mesmo dado estatístico. Para melhor entendê-lo, imagine a seguinte situação: a pesquisa visa descobrir qual a religião mais professada por determinada comunidade. Por este motivo, as perguntas são elaboradas para esse fim específico (descobrir qual religião mais professada por aquela comunidade) e a principal pergunta é ‘você tem afinidade com ou segue com alguma religião?’. Imagine então que numa comunidade com cem pessoas, as respostas sejam as seguintes: 20 são católicos,22 são evangélicos, 10 são espíritas e 48 disseram que não têm religião. Daí, de posse desses dados, um jornalista afirme que 48% das pessoas que moram naquela comunidade não acreditam em Deus. Essa afirmação estaria correta? Por óbvio que não: muitas pessoas não seguem religião alguma, mas se você perguntar a elas se elas acreditam em ‘deus’, ela afirmará que sim.

Superadas as questões supra, vamos à conclusão, chegada por um jornalista, da análise de um dado estatístico fornecido pelo CNJ:

“…O cadastro de adoções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revela uma realidade cruel: 37,25% dos candidatos a pais – 11.316 do total de 30.378 – só aceitam receber em seus lares crianças brancas. Ou seja, se houver uma criança disponível, mas com outra cor de pele, a adoção não será considerada por esses adultos. De acordo com os números do cadastro, a raça ainda é um fator essencial na hora de uma família escolher uma criança….”

A notícia, que vi no twitter da @fabianelima, inicialmente me chamou a atenção, pois essa conclusão imediatamente me fez pensar em racismo. Só que, depois de ler a notícia inteira, pude chegar à conclusão de que a interpretação que se deu à notícia está errada. Vamos aos outros dados:

- 46,94% dos futuros papais/mamães fazem questão de escolher a cor da pele dos filhos.

- 37,25% quer uma criança caucasiana;

- 5,81% quer uma criança parda;

- 1,91% quer uma criança negra;

- 1% quer uma criança amarela;

- 0,97% quer uma criança indígena.

Na notícia o jornalista colaciona a opinião de uma Juíza da 1ª Vara da Família de Petrópolis (RJ), Dra. Andréa Pachá, onde ela ‘alerta’ para o perigo de se ver a adoção como um processo biológico, e não de acolhimento:

“…É um dado estarrecedor. Ainda é forte a fantasia de que a adoção deve obedecer aos critérios da família biológica. Família é muito mais um núcleo de afeto do que herança biológica. Criança é criança, não tem cor. O discurso que se tem é o de que a criança não pode se sentir diferente. Mas isso é uma forma de racismo..”

Com esses dados e de posse da opinião da MM Juíza, o jornalista tira a seguinte conclusão:

“….A tese faz sentido. No cadastro, metade dos pretendentes à adoção da Região Sul só querem uma criança se ela for branca…”

A palavra que mais me incomodou foi a que alude à ‘acolhimento’. Quem deseja adotar uma criança, não quer ‘acolher’ alguém. Não é um tipo de ‘caridade’ que o casal está fazendo; o que o casal na verdade deseja é um filho e, neste quesito, é muito difícil superar a questão ‘biológica’: quando alguém pensa em filhos, ele pensa em alguém que perpetuará a si mesmo, pode parecer egoísmo, mas essa fantasia é comum. Assim, a maioria dos casais, naturalmente quererá uma criança que mais se pareça consigo.

Veja bem: meu pai é negro e minha mãe, branca. Meus irmãos têm a pele mais parecida com a do meu pai, enquanto que eu, mais parecida com a da minha mãe. Quando eu saía com meu pai, sempre perguntavam a ele ‘quem é essa menina?’ e não acreditavam quando ele respondia que era filha dele. Já com meus irmãos, a situação se invertia: sempre perguntavam à minha mãe se as crianças ‘eram da empregada’ e, quando ela respondia que eram filhos dela, perguntavam ‘são adotados’? Isso de ‘ter de ficar explicando’ situações é muito chato, especialmente para uma criança.

Agora o que quero observar é o seguinte: o racismo revelado pela notícia não consiste na escolha da cor da pele da criança. Na minha opinião, o racismo é revelado quando, de posse de dados estatísticos que contenham informações sobre os casais ‘adotantes’, ficar demonstrado que a maioria deles é caucasiano.

O que quero dizer com isso? Explico: duas tias minhas conseguiram adotar uma criança (meus primos) e o processo foi um verdadeiro inferno, pois as exigências são gritantes. Se você não demonstrar ter um nível financeiro ‘adequado’, você não consegue adotar (Se meus tios não tivessem salários relativamente altos para a média brasileira, se não tivessem casas próprias, provavelmente não conseguiriam). Assim, muitas famílias são excluídas como prováveis pais adotivos pelo critério financeiro.

Desta forma, o fato de que a maioria das pessoas que se candidatam à adoção serem caucasianos seria apenas mais um indício a demonstrar que há maior concentração de riqueza nas mãos de pessoas caucasianas. Assim, as estatísticas do CNJ seriam apenas um reflexo da pirâmide social existente em nosso país. Na medida em que mais pessoas pardas e negras tiverem ascensão à classe média, tenho comigo que aumentará o número de crianças pardas e negras que são adotadas. Afinal, exceto casos extremados, só abandona o filho aquele que não tem condições financeiras de criá-los.

Outros dados que são apenas ‘jogados’ na cara do leitor, mas que o jornalista simplesmente deixa ‘passar a largo’:

- 6,78% dos candidatos à pais/mães querem crianças com idade entre 6 e 10 anos;

- 0,76% aceitam infantes com idades de 11 a 17 anos;

Ou seja: a imensa maioria só aceita crianças menores de 6 anos de idade. E porquê tal ocorre? Qualquer um sabe responder a essa pergunta: todo mundo quer a oportunidade de ajudar na formação moral e intelectual da criança, a pessoa quer o que todo pai e mãe quer: ser pai e mãe; o que é praticamente impossível com crianças mais velhas. Todo mundo sabe o quão difícil é lidar com uma criança com personalidade já formada.

No final das contas, a conclusão que tiro disso tudo é: ninguém vai criticar um casal japonês por procurar uma criança japonesa para adotar; ninguém vai criticar um casal negro por procurar uma criança negra para adotar. Mas um casal branco escolher uma criança branca? RACISMO!

Nota: a conclusão tirada pelo jornalista (‘….a tese faz sentido…’) parte de premissas erradas: se na Região Sul os candidatos a pais/mães adotivos desejam adotar crianças caucasianas; isso não é indício de que sejam eles racistas (por ‘escolherem a cor’), mas simplesmente que eles: a) provavelmente são caucasianos e por quererem filhos mais parecidos consigo escolhem crianças também caucasianas, b) a maior parte da classe média da região (que têm mais condições financeiras para adotar) é formada por pessoas caucasianas.

Repiso: não significa que os candidatos à adotantes são racistas, mas sim que a classe média de lá é formada por caucasianos.

Fonte: O Globo

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Posted By: Fátima
Last Edit: 26 jan 2011 @ 01:17 PM

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Responses to this post » (2 Total)

 
  1. Ane disse:

    Fatima, eu deixei claro no post que o texto não era meu, e coloquei o link para o seu blog, inclusive deixei o seu texto entre aspas, para mostrar que não foi escrito por mim. Em um dos comentários, a pessoa que achou que eu tinha escrito, fez um comentário em seguida dizendo que entendeu que o texto era do link. Fiz mais um adendo, deixando claro que o texto não é meu, mas se quiser, eu excluo o post, ok? Desculpe a demora em responder, com o término da faculdade andei sem checar os emails. E eu não sou advogada, sou psicóloga, mas farei o que vc me pediu, e deixarei apenas a introdução, e quem tiver interesse lerá o texto integral no seu blog.
    Desculpe mais uma vez pelo transtorno, mas quando a gente lê algo bem escrito, quer compartilhar, e mesmo tomando o cuidado de citar a fonte, não achei que ficaria tão ofendida.

    • Fátima disse:

      Ane, ficou claro para mim que vc deixou claro que a postagem não era sua; só achei incorreto vc não responder ao comentario lá no seu blog, onde o comentarista achou que a postagem era sua, achei que você foi omissa em responder. Você PODE copiar qualquer texto meu, desde que mantenha a introdução (e no máximo dois paragrafos) e coloque o linka numa palavra ‘leia mais’ para que a pessoa que se interessar leia o restante em meu blog. Se vc quiser apagar o artigo em seu blog (coisa que não faço questão), fique à vontade, mas não acho necessário. Algumas inforamações devem ser divulgadas ao máximo possível. Peço que vc, ao copiar algo, peça autorização antes (e eu autorizarei) e corrija qq comentário que dê a entender que o texto é su, só isso.

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