Ontem o novo queridinho da América, Barack Obama, anunciou a morte de Osama Bin Laden e o mundo entrou em verdadeira ‘polvorosa’: jornais e jornalista se agitaram em busca de ‘furos’ (tanto que a Globo News divulgou uma montagem fotoshopada como se fosse uma imagem real do corpo de Osama), o twitter registrou mais de 4000 mensagens por segundo. De tudo o que li e ouvi, entendo merecer destaque alguns pontos:
- O @BlogdoNoblat disse, em seu twitter, que Osama estaria morto já há alguns dias e que o anúncio somente nesta data teria se dado para amenizar a mácula que seria criada em torno do presidente americano em virtude da morte dos filhos e netos (de 2 e 3 anos de idade) de Gadhafi em ataques da OTAN.
O que me leva a crer que esse comentário merece destaque? O primeiro motivo é que o argumento central parece plausível, já que ninguém gosta de ver inocentes sendo mortos e essas mortes, de fato, soam mal para quem se diz defensor da liberdade e da justiça.
Ocorre, meus amigos, que a Guerra não tem nada de bonito; ela é feia, desumana e cruel. Também não é a guerra uma simples continuação da política (como certa vez definiu Clausewitz), ela também existe como cultura (desde que o homem existe, ele guerreia e muitas vezes pelo simples gosto de guerrear – segundo a visão de John Keegan, o pacifismo só teria começado a ser encarado como algo de valor na era cristã).
Desta forma, quem quer que queira uma ‘guerra limpa’, está na verdade, fechando os olhos para uma realidade horrenda. Ainda que a Quarta Convenção de Genebra tenha criado uma série de ‘regras’ que delimitariam os limites da atuação dos países em conflito (protegendo civis, inclusive), a bem da verdade isso é sumariamente ignorado durante os conflitos. Você duvida? Segundo acusações dos EUA (não que eles mereçam total confiabilidade), a Líbia estaria fornecendo o medicamento ‘viagra’ para os soldados como forma de incentivo ao estupro (estupro utilizado como forma de aterrorizar a população). E se você acha que isso só acontece em regimes ‘totalitários’, lembre-se dos abusos cometidos pelos ‘guardiões da liberdade’ (EUA) na invasão do Iraque .
- A @ateiadebomhumor, ao ser perguntada se achava que o mundo se tornaria mais seguro com a morte de Osama, lembrou, de forma precisa, o mito de Hidra de Lerna, animal mitológico que tinha o corpo de dragão e cabeças de serpente: quando se cortava uma, nascia outra (ou outras) no lugar.
Concordo plenamente com ela (Sra. Asa): não obstante o bonito discurso de Obama, fato é que o mundo não se tornou ou se tornará um lugar tão-somente pela morte de Osama. Isto porque: a) para os seguidores de Osama, nesse momento ele está no céu gozando das delícias com suas 71 virgens; tornar-se-á um ‘mártir’ do grupo; b) enquanto a idéia motriz desses grupos terroristas não for destruída, outras cabeças-de-serpente nascerão no lugar da cortada (outros líderes aparecerão) e tudo ficará do mesmo jeito que está ou pior.
O que tem de ser combatido não é o efeito (ou os efeitos_, mas sim a causa da doença. E a verdadeira causa, raiz do problema está na idéia da Jihad. Lembre-se que a Al-Qaeda teve como embrião a MAK – Maktab al-Khadamat, organização formada por guerreiros que lutam na jihad (Mujahidins) cujo objetivo teria sido instalar um estado islâmico durante a Guerra Soviética Afegã (ironicamente quem primeiro financiou esse grupo foi a CIA). Enquanto os ‘defensores da liberdade’ ficarem combatendo os efeitos, estarão a lutar contra moinhos-de-vento. É essa idéia (causa da doença) que tornam possível que um menino de 12 anos se tornar um ‘menino-bomba’, matar 4 pessoas e ferir 12. O monstro não é o menino, mas a idéia perniciosa que enfiaram no cérebro infantil dele.
- O @realjosedeabreu comentou a ‘teatralidade’ do discurso do presidente americano, mencionando que o ‘caminhar de costas até sair da visão da câmera’ mais parecia coisa de filme (só teria faltariam os créditos ‘subindo’).
O ator politicamente engajado José de Abreu fez uma correta e pertinente observação. Sim, a teatralidade foi a marca do discurso presidencial. Tal se deu por vários motivos:
a) Os EUA empreenderam a chamada ‘Guerra contra o Terror após os ataques de 11 de setembro. Considerando que terrorismo seria o uso da violência (física ou psicológica) por meio de ataques localizados como objetivo de incutir medo e terror; terrorista seria qualquer pessoa que assim agisse (se eu resolvesse me tornar uma ‘mulher bomba’ para protestar contra uma eventual falta de vaga para minha filha na escola, poderia ser considerada terrorista), de forma que escolher como alvo ‘o terror’ torna por demais genérico e indefinido o ‘inimigo’ a ser combatido na guerra empreendida.
Desta forma, qualquer indivíduo, grupo ou Estado que utilizasse o terror poderia ser, hipoteticamente, considerado inimigo pelos istates e isso permitiu que esse país ‘da liberdade’ acabasse usando essa malfadada guerra como meio para constituir um verdadeiro ‘estado permanente de tensão e alerta’ tanto naquele país quanto em outros. Além disso, a não indicação clara do ‘inimigo’ permitiu que os EUA usassem essa guerra como desculpa para defender seus interesses econômicos, ofendendo a soberania de Estados que possuem reservas de petróleo.
Esse comportamento – bem como o sistemático desrespeito aos direitos humanos empreendidos pelos EUA – foi denunciado pela mídia, fazendo com que aquele país fosse severamente criticados pela comunidade internacional. Ao ser eleito, o presidente Barack Obama prometeu retirar as tropas do Iraque e fechar a prisão de Guantánamo.
Assim, ao fazer aquele belo discurso de ontem à noite, Obama procurou transformar o Osama no ‘arqui-inimigo’ e qualificar o assassínio dele como um ‘ato de justiça’ às vítimas do 11 de setembro.
b) Na medida em que coloca Osama como o ‘arqui-inimigo’ da Nação, Barack Obama faz o que no Século XVI ensinou Maquiavel: enganar o povo. Nas palavras de Nicólo (‘O Príncipe, pg.25):
“…Nunca faltaram aos príncipes motivos para dissimular quebra de fé jurada. De tal, incontáveis exemplos modernas poderiam ser dadas, demonstrando quantas convenções e promessas tornaram-se írritas e vãs pela infidelidade dos príncipes. E, dentre estes. aquele que melhor se valeu das qualidades da raposa, venceu. Necessário, entretanto, é disfarçar muita bem esta qualidade e ser bom simulador e dissimulador. E tão simples são os homens, obedecendo tanto às necessidades atuais, que aquele que engana encontrará sempre a quem enganar…”
O pior de tudo, é que o povo quer ser enganado. Sim, quer; se outrora (nos tempos de Maquiavel) as informações eram controladas e haviam poucas fontes; hoje há abundância delas, mas ainda assim o populacho se deixa enganar por vontade própria. Também isso não é novidade alguma, Veja o que ensinou Etiénne de La Boeti (‘Discurso da Servidão Voluntária’ .pdf, pg.19):
“…É muito próprio do vulgo, mormente o que pulula nas cidades, desconfiar de quem o estima e ser ingênuo para com aqueles que o enganam. Atrair o pássaro com o apito ou o peixe com a isca do anzol é mais difícil que atrair o povo para a servidão, pois basta passar-lhes junto à boca um engodo insignificante.
É espantoso como eles se deixam levar pelas cócegas. Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, as feras exóticas, as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos engodos da servidão, preço da liberdade, instrumentos da tirania. Deste meio, desta prática, destes engodos se serviam os tiranos para manterem os antigos súditos sob o jugo. Os povos, assim ludibriados, achavam bonitos estes passatempos, divertiam-se com o vão prazer que lhes passava diante dos olhos e habituavam-se a servir com simplicidade igual, se bem que mais nociva, à das crianças que aprendem a ler atraídas pelas figuras coloridas dos livros iluminados.
Os tiranos romanos decretaram também na celebração freqüente das decenálias públicas, para as quais atraiam a canalha que põe acima de tudo os prazeres da boca. Nem o mais esclarecido de todos eles trocaria a malga da sopa pela liberdade da república de Platão. Os tiranos ofereciam o quarto de trigo, o sesteiro de vinho e o sestércio. E os vivas ao rei eram então coisa triste de ouvir. Não davam conta, os néscios, de que recuperavam dessa forma parte do que era seu e que não podia o tirano dar-lhes coisa que não lhes tivesse furtado antes. O que hoje ganhava o sestércio, o que se fartava de comer no festim público, louvando a grande liberalidade de Tibério e Nero, era no dia seguinte obrigado a entregar os seus haveres à avareza, os filhos da luxúria e o próprio sangue à crueldade daqueles magníficos imperadores, e fazia-o sem dizer palavra, mudo como uma pedra, quedo como um cepo. O povo sempre foi assim…”
O objetivo deste engodo? Barack Obama age como Guido (no filme La vita è bella), que faz crer o pequeno Giosuè que ‘está tudo bem’ (ou que ficará tudo bem). Osama foi morto? Todos os problemas da Nação foram resolvidos. Voltemos ao nosso ‘American way of life’, sim?
Se você não enxerga isso, meu amigo, você age qual o fantasminha camarada ‘Malcolm Crowe’, que só enxergava o que desejava enxergar.
Por fim, avalio que a prisão de Osama não trouxe muitos benefícios ao povo americano, mas causou nele uma tal euforia, que o maior beneficiado, sem dúvida será o próprio Barack Obama. Só quero ver se ele terá a mesma capacidade de Heracles.
“Existe alguém
Esperando por você
Que vai comprar
A sua juventude
E convencê-lo a vencer…Mais uma guerra sem razão
Já são tantas as crianças
Com armas na mão
Mas explicam novamente
Que a guerra gera empregos
Aumenta a produção…Uma guerra sempre avança
A tecnologia
Mesmo sendo guerra santa
Quente, morna ou fria
Prá que exportar comida?
Se as armas dão mais lucros
Na exportação…Existe alguém
Que está contando com você
Prá lutar em seu lugar
Já que nessa guerra
Não é ele quem vai morrer…E quando longe de casa
Ferido e com frio
O inimigo você espera
Ele estará com outros velhos
Inventando
Novos jogos de guerra…Que belíssimas cenas
De destruição
Não teremos mais problemas
Com a superpopulação…Veja que uniforme lindo
Fizemos prá você
Lembre-se sempre
Que Deus está
Do lado de quem vai vencer…Existe alguém
Que está contando com você
Prá lutar em seu lugar
Já que nessa guerra
Não é ele quem vai morrer…E quando longe de casa
Ferido e com frio
O inimigo você espera
Ele estará com outros velhos
Inventando
Novos jogos de guerra…Que belíssimas cenas
De destruição
Não teremos mais problemas
Com a superpopulação…Veja que uniforme lindo
Fizemos prá você
Lembre-se sempre
Que Deus está
Do lado de quem vai vencer…O senhor da guerra
Não gosta de crianças…”

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O buraco pode ser mais embaixo ainda. Hoje, após 2000 anos, ninguém duvida que Nero incendiou Roma. Quanto ao incêndio de 1933 no Reichstag, parlamento alemão, a culpa recaiu impiedosamente sobre os comunistas e foi a cartada final para a ascensão de Hitler como ditador, salvador do povo alemão, guerreiro ariano que lutaria contra as forças das trevas — leia-se: terrori.. ops, comunistas. Hoje em dia, 80 anos depois, quase a totalidade dos historiadores não têm dúvidas que foi a própria SS quem planejou o incêndio.
E quanto ao ataque/incêndio nas torres gêmeas em 2001? Alguém aí já viu terrorista NEGAR a autoria de um ataque??? A autoria contém a motivação e é até mais importante do que o sucesso do ataque.
Pois bem. Osama negou veementemente a autoria deste ataque: Aqui um arquivo da cnn da época: http://archives.cnn.com/2001/US/09/16/inv.binladen.denial/
Com dizia meu conterrâneo Jãozin Guimarães Rosa: “Eu quase que nada sei. Mas desconfio de muita coisa…”
Não recomendo que você assista a série de filmes Zeitgeist (se é que já não assistiu).
No mais, com relação ao texto, adorei. Penso de maneira parecida.
Como não assisto mais televisão – falta de tempo e saco – e nos últimos dias não pude ler muita notícia na internet, fiquei sabendo do “causo” hoje pela manhã, quando um colega no trabalho disse que todo mundo estava falando sobre.
Será que foi o próprio Bush filho que deu o tiro no camarada?
Adoro a canção do senhor da guerra, mas particularmente creio estarmos no momento certo para que a humanidade mude e os aspectos citados sejam coisa do passado. Como dito, nunca tivemos um acesso tão amplo à informação, e isso acabou meio que nos leva a uma menor capacidade de julgamento sobre o que é verdade ou não. Quando na história humana tivemos tantos movimentos pró-humanistas e secularistas. Ok, talvez não tenhamos tantos intelectuais quanto no passado (imagine o seu filósofo favorito discursando em 140 caracteres), mas em números somos muito mais que os em toda a história anterior da humanidade somados. Será que morreremos em tuíteres da vida?
Leandro,
Assisti o filme citado, mas também não o tomei por verdade absoluta, viu. A respeito, dá uma olhada no comentário do Andrei (link sobre a negação de autoria), veja que curioooooso.
Aliás: obrigado a ambos (Andrei e Leandro) pela participação.
Abraços!
E adivinhe quem perguntou?
A Oprah?
O que achei estranho foi eles terem enterrado o corpo no mar! Muito estranho… Prato cheio para os conspiracionistas. Infelizmente.
PS: Agora que vi que o link do meu blog estava errado.
Nihil.
Hoje li um artigo de um cara apelidado de IzzyNobre que acabou com minha ‘estranheza’(deles jogarem o corpo no mar).
Pois é, sem corpo, sem morte. O caso do goleiro Bruno está criando jurisprudência internacional.
Juliano Me,
Oi.
Nem sempre. Na ausência de provas diretas de um crime, o processo penal admite que se lance mão de provas indiretas.
Fui eu quem perguntou
Pelo Formspring.
Eu sei.
Olá Fátima, bom na minha opinião o Bin laden foi tarde, o que isso vai melhorar em nossas vidas? Creio que pouca coisa, mas para quem sofre com a neurose ( justificada) de ataques terrorista , vai ser um alento , mesmo que células independentes não precisem do cérebro líder para agirem, de qualquer forma presenciamos fatos que entrarão para os livros de história.
P.S Gostaria depois se possível me desse uma ajuda em uma questão jurídica. Obrigado e ótimo post. Ah eu vi que o André do Ceticismo.net, te alertou sobre as 71 virgens , não constar no Alcorão, mas como bom crente eles também não leêm seus livros “sagrados”.